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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Pessado

O tempo é meu amigo
E o passado uma morada segura
Posso amar novamente
Posso nunca mais ser amada
Mas o passado não vai mudar

Pode tirar tudo de mim
Mas minhas lembranças ficam.
E nenhum atentado, ceticismo
ou totalitarismo as apagarão

Você pode me odiar
Eu posso nunca mais te ver
Mas você não me esquecerá
E eu terei um pedaço vivo,
Pulsante, radiante e ardente
de você em mim

Você está e é toda poesia que me circunda
Um verso seu, um verso meu
Uma frase gravada na memória
Uma ideia filosófica
Uma ação militante
Uma fotografia não revelada
Um ponto no meio da cidade
Um desejo dentro de mim

E esses sentimentos, estáticos ou crescentes,
Existem porque já existiram
E não se muda o passado
O que aconteceu já está na história
É um fato bruto
E isso ninguém vai mudar
Nem mesmo você,
nem mesmo eu.

O presente pouco importa
Porque nem sequer existe
O futuro incógnito
Não deve ser mais que um horizonte móvel
Infinito de possibilidades
Mas que também não existem ainda

E o que existe é tão somente
O que existiu
O que se palpou
O que se sentiu
Eu te amei
E por isso te amo
E tudo o que disse era verdade
Contextos póstumos não apagam
Nem se sobrepõem aos anteriores

A verdade é o passado
Única certeza que temos
Nesse mundo caduco
De aceleradas transformações
Onde o único abrigo
É o que passou
e o que continua

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Eu evito o máximo possível de escrever 
Pois terei que de alguma forma sistematizar tudo o que ando pensando 
Eu evito o máximo que posso de ler 
Como alguém evita comer mais do que consegue digerir 

Eu não quero que me vejam chorar 
Pois não quero ter que explicar os porquês 
Eu não quero conversar 
Porque não saberia nem por onde começar 

Eu estou quase tirando o exército de uma pessoa do campo do neoliberalismo 
Contudo, continuarei tendo os mesmos papos chatos 
Sobre política, popularização, historiografia e educação 
Mas ficarei só 
Respirando e não vivendo 
Pois só se vive quando se sonha
Mas sonhos significam batalhas
E eu cansei de lutar

Não quero amar, 
Não quero ser amado.
Não quero combater, 
Não quero ser soldado.
(Belo Belo, M. Bandeira)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Escrever dói
É um ato de esforço
É um parto
Sai rasgando
(e, às vezes, sangrando)

Desafia tudo o que é natural
É construção, é imposição,
É colonização, é doutrinação, é civilização

É se afastar de tudo o que é real
É objetivar, sistematizar, codificar

É a base de todo o ocidente
É o que une todo o mundo

É um parâmetro para distinguir,
para elevar pouquíssimos
É para se comunicar, para se expressar
e para impedir a expressão

É uma costura
Cada conjugação, preposição, vírgula
É um ponto
Leva tempo, leva prática
Te faz desmanchar tudo

É usar a linha certa, o tecido certo
É ter a máquina regulada
É regular e controlar seus pensamentos

É se firmar no chão,
Sentar, focar,
Tirar a visão periférica

A revolução se deu ao lado dela
As revoluções não se oporão a ela

Ela junta
(mais rápido do que fazer um hífen)
Ela separa
(te joga para a próxima linha
próximo parágrafo
próxima página
próximo capítulo
próximo livro
próxima vida)
Ou simplesmente te apaga

Te põe no presente
te coloca no passado
numa simples conjugação de verbo,
que estava lá desde o princípio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Deixa pra lá
A costura, os livros, a pesquisa
A nostalgia, os erros, o amor
A política, a igreja, a periferia
A alimentação, a higiene, a graduação
Deixa pra depois
Bourdieu, Hartog, Sartre, Certeau
A aculturação, a sistematização, a objetivação, a França
A forma escolar de socialização
A religião, a lua, o cigarro, o conhaque
As amizades, os homens, o meu aniversário
Pouco importa
A passagem dos anos
O dia 6, 7
Whatever
(enquanto isso a Europa vai se distanciando da América em minúsculos movimentos)
Deixa pra elá o além mar
Já foi descoberto e revisado
Tanto faz
Tudo o que importa é o nada
O não existir
Quando eu for, quem sabe,
Faça sentido
Um novo sentido
Eu quero cortar o meu cabelo
Até não me reconhecer mais
Talvez a literatura explique
Agora ou depois
Eu nem devia dizer
(eu queria poder dizer e conseguir dizer de fato)
mas laranja mecânica é o melhor filme não visto

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Eu quero me perder da multidão
Eu quero guardar segredos, desvendar mistérios
Quero o baixo, o sussurro, o escondido
Quero o quieto, o acalento, o sereno,
Não incomodar os passarinhos.

Quero as noites escuras, as quatro paredes, o barulho de chuva.
Quero experiências únicas e minúsculas.
Não quero estruturas, nem conjunturas,
quero o corriqueiro, o que se perde com o início da manhã.

Não sou claustrofóbica
Não tenho medo do menor
Mas tenho medo de me perder
No deserto, na floresta, no universo, no mar
Quero chegar perto, quero repousar
Dividir uma rede
Encostar minha cabeça em peito alheio

Viver uma vida não em coletivo
Mas em par
Quero esquecer do resto da população, das porcentagens, das tradições
Quero o novo, o exclusivo, o indivisível,
Eu quero o íntimo, acima de tudo, o íntimo.

sábado, 14 de novembro de 2015

Não me culpem por ser tão dentro de mim, mas quando se está na prisão por tantos anos, o seu próprio interior é o único refúgio.
Mas não posso me enganar achando que as filosofias sobre a vida e as experiências dos homens do passado me libertarão. A minha existência define minha essência. Então não estou mais somente na prisão, eu sou a prisão.
Não posso deixar que passarinhos voem para dentro de minha cela e queiram ficar, fissurados por uma falsa representação de beleza. Eu tenho que deixar eles irem senão, de qualquer forma, eles morrerão ao meu lado. Com o tempo ficam sem cor, sem pena, magros. Mortos vivos. Por mais que eles queiram se amarrar, eles têm que sair, nem que eu tenha que expulsá-los. Eles têm que ser livres, mesmo que a consciência da liberdade demore para aparecer neles. 
Quanto a mim não se preocupem. A melhor forma de gostar é não ter. Talvez os aviste voando por aí pela minha janela quadrada.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Seca

Seca
Objetiva
Grossa
Fria
Marte e Vênus
Em capricórnio

Seca
Magra
Comprida
Minhoca
Sem bunda
Sem peito

Na seca
Sem gozo
Sem sexo
Sem sexo?
Sexo sim: feminino

Jovem
Feminina
Sem jeito
Sem certezas
Sem retórica
Sem pinto
Sem respeito
Sem credibilidade

Seja linda
(Mas não exagere)
Seja gostosa
(Mas não se contente)
Seja extrovertida
(Mas se comporte)
Seja estudiosa
(Mas não se ache inteligente)
Seja educada.
Seja seja seja

Odeio imperativo
Odeio império
Odeio monarquia
Não me chame de princesa
Não me chame de nada
Não diga psiu na rua para mim
Não se dirija a mim na rua
Não estou a venda
Não sou pedaço de carne
Não sou sua
Não sou de ninguém
A não ser que eu queira