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segunda-feira, 27 de março de 2023

salmos

me perdoe, ó Deus

por não conseguir acertar

por não conseguir me livrar

de tudo o que o Senhor odeia

eu ainda só penso em mim

no meu conforto, no meu futuro

na minha segurança, nos meus desejos

eu inicio discussões

eu não cesso brigas

eu não tenho controle da minha boca

eu não tenho controle das minhas emoções

e a angústia que sinto hoje

eu não sinto todos os dias

a que horas do dia me lembro do Senhor?

na hora de fechar os olhos e dormir

na hora de pedir por milagres

na hora de pedir por graça, 

na hora de pedir por coisas

feitas por matérias que ficarão na Terra

peço por reconhecimento que só importa a mim

me perdoa por não enxergar as pessoas

como Cristo que por elas morreu

por me achar merecedora

por achar que no fundo tem algo de bom em mim

mas não no próximo

me dá os teus olhos, Senhor

me dá o seu amor para amar

um amor de verdade, um amor genuíno

um amor sem inseguranças 

sem orgulho, sem maldade

eu quero te servir, eu quero poder te orgulhar

eu quero poder ajudar o próximo

recitando a sua palavra de cor

quero falar o que o teu espírito soprar

quero guardar os teus ensinamentos

e os praticá-los

fazer com que o Teu nome seja glorificado

quero que as pessoas me reconheçam por quem tu és

não quero viver a falsidade que a religião traz

mas a transformação que só o Senhor pode fazer

sem mais fofocas, sem mais inveja 

sem querer primeiro ter para depois dar

eu não quero te encaixar na minha rotina

quero que sejas a prioridade

o primeiro e último pensamento

que a sua vontade em mim esteja gravada

feito tatuagem

para que nunca me esqueça 

quem o Senhor quer que eu seja

cure as minhas máguas

mostre-me a sua vontade

Amém

sexta-feira, 10 de março de 2023

árvore

Tenho um nó na garganta

do tamanho de uma árvore

semeada desde a tenra infância

a cada choro engolido

a cada grito recebido

a cada ato descompensado seu

E ela cresceu

raspando seus galhos pontiagudos 

em minha garganta 

A boca fechada garante que dentro ela fique

De vez em quando uma flor pula

para fora

voa

destemida 

ousada

imaculada

Por vezes um fruto amargo se lança

atinge 

agride 

despeja sementes que semeiam

Mais frutos que não podem ser comidos

São dispensados 

Ignorados 


sábado, 7 de março de 2020

sonhos

Eu não sei como você conseguia me dar tesão quando eu nem conhecia o orgasmo 

Eu não sei como você escrevia e falava as coisas que eu mais queria e mais odiava receber 

Eu não sei como a gente iniciou uma breve história e não sei como tivemos forças para acabar com ela

Eu não sei quando exatamente nos transformamos ou nos revelamos o oposto do outro

Eu não sei como seu rosto, toque, perfume e voz ainda chegam a mim, você que nem existe mais

Você é um personagem de uma história, que em partes eu inventei

Te devorei e te mastiguei por meses como um livro

Que enfim acabou ficando na estante, pegando pó, depois caiu atrás do móvel e lá permaneceu esquecido.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Não sei

Eu não sei quem eu sou, mas sei que minha cama tem o espaço suficiente que o meu corpo necessita, sei que meus sapatos já aderiram a anatomia dos meus pés, sei que minhas roupas infiltraram o meu cheiro, sei que minha estante têm livros que falam meu idioma. 
Não sei quem ainda sou, mas minha caixa está cheia de papéis e objetos com minhas memórias. 
Como se eu saísse do meu corpo, consigo observar tudo ao meu redor e enxergar uma existência, como Ulisses ao ouvir sua própria história ser contada. 
Eu, porém, vivo. 
Como um fantasma ao repetir as mesmas ações e falar sobre as mesmas coisas.
Ando sozinha, mas não sou solitária.
Não sei quem serei, mas os móveis continuarão na mesma disposição e a cor das paredes não mudarão. Meu cabelo vai embranquecer, minhas rugas aparecerão. Terei falas nostálgicas e ficarei mais conservadora? Não sei. Mais desiludida? Com certeza. 
Assim como eu, o mundo muda. Ele me ensina a conhecer o novo e deixar velhas ideias para trás.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

fim

Quando o cachorro está para morrer
Ele perde o apetite
E não sai de sua cama

Eu perdi o apetite
E não saio da cama
Eu quero morrer
Mas não sou cachorro

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Estava no carro olhando para a janela para esconder o rosto. eu tentava engolir o choro e falhava miseravelmente nisso. Lembrei de uma vez que fiz exatamente o mesmo por sua culpa. Sempre que engulo o choro, me calo como uma muda, escondo meus sentimentos, eu me lembro de você. Pai, desde um bom tempo eu tento encontrar em você a criança sorridente carregando um cachorro como na foto que uma vez a vó me mostrou. Na caixinha de tesouros das memórias dela tinham outras fotografias e de todos os filhos dela, você era o único que resolveu tirar a foto com um cachorro. Desde então tenho tentado buscar essa criança dentro de você. É por certo que eu te amo. É por certo que você é um ótimo pai. Mas tenho flashes de vários momentos seus que não agradam, que são memórias ruins, que são feridas abertas deixadas de canto, ignoradas, até um certo tipo de momento que todas elas voltam de uma vez. Eu me acostumei em não receber elogios, em saber que o que faço é bom, correto, ético, competente, por mim mesma. Não é só porque você não reconhece, mas porque eu prefiro não te contar muita coisa, porque você consegue encontrar meios de censurar até mesmo o que eu achava que era algo bom. O que me dói é que eu não sei se você me ama, como sempre diz nos momentos de briga para me fazer me sentir mal. Eu não sei o que é o amor para você, na verdade. Você se preocupa, você cuida, você tem medo, você controla, você constrange, você quer impor sempre a sua visão. Você não me conhece, e nem se conhecesse me amaria por isso. Você me ama porque sou sua filha, porque é o seu dever. Você só ama alguém por alguma razão que ache que deva amar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Chegamos mais longe do que qualquer coisa que já passei. Estou assustada, feliz, mas assustada. Assutada por você, pela primeira vez. Antes tinha medo de ser anulada, de ser mudada, em sentidos da transcendentalidade que não gostaria de alterar. Bati o pé, me mantive. Depois tive medo de ser anulada, de ser mudada, em sentidos da mundanidade que não gostaria de alterar. Bati o pé, me mantive. Agora dou de cara com você. O perigo sou eu. O problema não é mais pensar se serei feliz, mas se vou te fazer feliz. Tenho medo do meu eu futuro, de repetir por diversas vezes meus acontecimentos originais nesse presente eterno, de não me curar, de não enterrar o passado. De me transformar naquilo que rejeito, mas que me habita desde antes mesmo de eu conhecer a mim mesma. Você é amor, você é cuidado, você é paciência, você é abraço. Você é tudo isso, porque você não fala sobre isso, porque você nem sequer deve se dar conta disso. Enquanto isso eu sou eu, a bagunça, a erupção inesperada, eu sou o pensamento, eu sou o controle. Eu sou a solidão, a imersão, o buraco.