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domingo, 21 de fevereiro de 2016

Eu não sabia o que fazer
No primeiro dia em que te vi
Sem termos que nos conter
Por impulso, então, te dei um beijo

Eu não sabia o que fazer
Quando em lágrimas nos despedimos
Sem saber se seria para sempre
O que fiz, então, foi te beijar

Eu ainda não sei o que fazer
Nem o jeito certo de agir
Mas sei que não posso te beijar
Como eu já fiz

A vida exige maturidade
Resoluções racionais e realistas
Que eu seja adulta
E tome decisões como tal

Que eu acredite na razão,
ou numa cosmovisão definida
Em pessoas mais velhas
Ou naquelas com o olhar exterior

Mas em relação a tudo isso
E ao meu amor pueril
Que como um rio
seca mas não morre

Que me marcou, me tatuou
Me afogou, me embebedou
me arrancou pedaços
Irreversíveis de serem postos no lugar

Que me fez acreditar
E num outro extremo
Ser cruel, fria
E perder a esperança

Certa das decisões tomadas
Mas com sentimentos indevidos
Impedida de me entregar novamente
E de (querer) esquecer o passado

Bom, continuo sem saber como agir...

/Irene

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Se você pudesse olhar para mim
Olhar para mim, mesmo
De verdade
Bem de perto
A olho nu
Veria que não tenho mais dezesseis
Mas que também não tenho sessenta
Veria que estou só
Mas que aqui dentro não há falta
Veria que tenho memórias
Mas não deixo de lado o meu presente
Veria que não estou morrendo
Nem caçando migalhas
Mas que, pelo contrário,
Sou chama viva
Sou possibilidades
Sou juvenilidade
Sou liberdade
Sou, também, futuro

Veria que minha ambição
Não passa por cima de ninguém
Veria que tenho medo de magoar
Enquanto passam por cima de mim
Veria que sou pacífica
E por isso engulo muitos sapos
Veria que meu senso de justiça
Condena não só a mim mesma

Mas você não pode me ver
Nem ninguém pode
Mas a ciência faz isso:
Faz-nos achar que conhecemos
Só porque lemos

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Nunca fico bêbada
nunca nem bebo
Mas decidi, para variar,
ser um pouco adolescente

Não era para ser pouco
era para extrapolar
era para tacar merda no ventilador mesmo
era para esquecer quem eu sou
e dos outros
era para esquecer a culpa
a sensação de ser observada,
vigiada e controlada

Bebi, dancei, tirei a roupa
peguei um carro
corri para mais de 150km/h
gritava e gritava palavrão
porra, cassete, caralho, foda-se, buceta
pa-ra-le-le-pí-pe-do
e depois quando meu repertório acabou
dei para falar comigo mesma
falava do que estava no mais fundo da minha alma
e num momento seguinte falava sobre desenhos animados

e a lei seca?
me desculpe, seca?
não estou seca
nem me lembro de estar seca
não sei o que é estar seca
nunca ouvi essa palavra
tudo o que tem dentro de mim são águas
e águas
correntes correndo
e batendo em pedras
formando explosões
de puro tesão
nossa, que tesão!
meu corpo estremecia
se aquecia
tinha espasmos
movimentos involuntários e voluntários
uma chama vinha de dentro
e subia
como um vômito

Vômito...

Depois da breve ressaca
fiquei sóbria demais
cética demais
seca demais
cruel demais
e me esqueci de tudo

Pessado

O tempo é meu amigo
E o passado uma morada segura
Posso amar novamente
Posso nunca mais ser amada
Mas o passado não vai mudar

Pode tirar tudo de mim
Mas minhas lembranças ficam.
E nenhum atentado, ceticismo
ou totalitarismo as apagarão

Você pode me odiar
Eu posso nunca mais te ver
Mas você não me esquecerá
E eu terei um pedaço vivo,
Pulsante, radiante e ardente
de você em mim

Você está e é toda poesia que me circunda
Um verso seu, um verso meu
Uma frase gravada na memória
Uma ideia filosófica
Uma ação militante
Uma fotografia não revelada
Um ponto no meio da cidade
Um desejo dentro de mim

E esses sentimentos, estáticos ou crescentes,
Existem porque já existiram
E não se muda o passado
O que aconteceu já está na história
É um fato bruto
E isso ninguém vai mudar
Nem mesmo você,
nem mesmo eu.

O presente pouco importa
Porque nem sequer existe
O futuro incógnito
Não deve ser mais que um horizonte móvel
Infinito de possibilidades
Mas que também não existem ainda

E o que existe é tão somente
O que existiu
O que se palpou
O que se sentiu
Eu te amei
E por isso te amo
E tudo o que disse era verdade
Contextos póstumos não apagam
Nem se sobrepõem aos anteriores

A verdade é o passado
Única certeza que temos
Nesse mundo caduco
De aceleradas transformações
Onde o único abrigo
É o que passou
e o que continua

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Eu evito o máximo possível de escrever 
Pois terei que de alguma forma sistematizar tudo o que ando pensando 
Eu evito o máximo que posso de ler 
Como alguém evita comer mais do que consegue digerir 

Eu não quero que me vejam chorar 
Pois não quero ter que explicar os porquês 
Eu não quero conversar 
Porque não saberia nem por onde começar 

Eu estou quase tirando o exército de uma pessoa do campo do neoliberalismo 
Contudo, continuarei tendo os mesmos papos chatos 
Sobre política, popularização, historiografia e educação 
Mas ficarei só 
Respirando e não vivendo 
Pois só se vive quando se sonha
Mas sonhos significam batalhas
E eu cansei de lutar

Não quero amar, 
Não quero ser amado.
Não quero combater, 
Não quero ser soldado.
(Belo Belo, M. Bandeira)

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Escrever dói
É um ato de esforço
É um parto
Sai rasgando
(e, às vezes, sangrando)

Desafia tudo o que é natural
É construção, é imposição,
É colonização, é doutrinação, é civilização

É se afastar de tudo o que é real
É objetivar, sistematizar, codificar

É a base de todo o ocidente
É o que une todo o mundo

É um parâmetro para distinguir,
para elevar pouquíssimos
É para se comunicar, para se expressar
e para impedir a expressão

É uma costura
Cada conjugação, preposição, vírgula
É um ponto
Leva tempo, leva prática
Te faz desmanchar tudo

É usar a linha certa, o tecido certo
É ter a máquina regulada
É regular e controlar seus pensamentos

É se firmar no chão,
Sentar, focar,
Tirar a visão periférica

A revolução se deu ao lado dela
As revoluções não se oporão a ela

Ela junta
(mais rápido do que fazer um hífen)
Ela separa
(te joga para a próxima linha
próximo parágrafo
próxima página
próximo capítulo
próximo livro
próxima vida)
Ou simplesmente te apaga

Te põe no presente
te coloca no passado
numa simples conjugação de verbo,
que estava lá desde o princípio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Deixa pra lá
A costura, os livros, a pesquisa
A nostalgia, os erros, o amor
A política, a igreja, a periferia
A alimentação, a higiene, a graduação
Deixa pra depois
Bourdieu, Hartog, Sartre, Certeau
A aculturação, a sistematização, a objetivação, a França
A forma escolar de socialização
A religião, a lua, o cigarro, o conhaque
As amizades, os homens, o meu aniversário
Pouco importa
A passagem dos anos
O dia 6, 7
Whatever
(enquanto isso a Europa vai se distanciando da América em minúsculos movimentos)
Deixa pra elá o além mar
Já foi descoberto e revisado
Tanto faz
Tudo o que importa é o nada
O não existir
Quando eu for, quem sabe,
Faça sentido
Um novo sentido
Eu quero cortar o meu cabelo
Até não me reconhecer mais
Talvez a literatura explique
Agora ou depois
Eu nem devia dizer
(eu queria poder dizer e conseguir dizer de fato)
mas laranja mecânica é o melhor filme não visto