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sábado, 7 de março de 2020

sonhos

Eu não sei como você conseguia me dar tesão quando eu nem conhecia o orgasmo 

Eu não sei como você escrevia e falava as coisas que eu mais queria e mais odiava receber 

Eu não sei como a gente iniciou uma breve história e não sei como tivemos forças para acabar com ela

Eu não sei quando exatamente nos transformamos ou nos revelamos o oposto do outro

Eu não sei como seu rosto, toque, perfume e voz ainda chegam a mim, você que nem existe mais

Você é um personagem de uma história, que em partes eu inventei

Te devorei e te mastiguei por meses como um livro

Que enfim acabou ficando na estante, pegando pó, depois caiu atrás do móvel e lá permaneceu esquecido.

quarta-feira, 4 de março de 2020

Não sei

Eu não sei quem eu sou, mas sei que minha cama tem o espaço suficiente que o meu corpo necessita, sei que meus sapatos já aderiram a anatomia dos meus pés, sei que minhas roupas infiltraram o meu cheiro, sei que minha estante têm livros que falam meu idioma. 
Não sei quem ainda sou, mas minha caixa está cheia de papéis e objetos com minhas memórias. 
Como se eu saísse do meu corpo, consigo observar tudo ao meu redor e enxergar uma existência, como Ulisses ao ouvir sua própria história ser contada. 
Eu, porém, vivo. 
Como um fantasma ao repetir as mesmas ações e falar sobre as mesmas coisas.
Ando sozinha, mas não sou solitária.
Não sei quem serei, mas os móveis continuarão na mesma disposição e a cor das paredes não mudarão. Meu cabelo vai embranquecer, minhas rugas aparecerão. Terei falas nostálgicas e ficarei mais conservadora? Não sei. Mais desiludida? Com certeza. 
Assim como eu, o mundo muda. Ele me ensina a conhecer o novo e deixar velhas ideias para trás.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

fim

Quando o cachorro está para morrer
Ele perde o apetite
E não sai de sua cama

Eu perdi o apetite
E não saio da cama
Eu quero morrer
Mas não sou cachorro

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Estava no carro olhando para a janela para esconder o rosto. eu tentava engolir o choro e falhava miseravelmente nisso. Lembrei de uma vez que fiz exatamente o mesmo por sua culpa. Sempre que engulo o choro, me calo como uma muda, escondo meus sentimentos, eu me lembro de você. Pai, desde um bom tempo eu tento encontrar em você a criança sorridente carregando um cachorro como na foto que uma vez a vó me mostrou. Na caixinha de tesouros das memórias dela tinham outras fotografias e de todos os filhos dela, você era o único que resolveu tirar a foto com um cachorro. Desde então tenho tentado buscar essa criança dentro de você. É por certo que eu te amo. É por certo que você é um ótimo pai. Mas tenho flashes de vários momentos seus que não agradam, que são memórias ruins, que são feridas abertas deixadas de canto, ignoradas, até um certo tipo de momento que todas elas voltam de uma vez. Eu me acostumei em não receber elogios, em saber que o que faço é bom, correto, ético, competente, por mim mesma. Não é só porque você não reconhece, mas porque eu prefiro não te contar muita coisa, porque você consegue encontrar meios de censurar até mesmo o que eu achava que era algo bom. O que me dói é que eu não sei se você me ama, como sempre diz nos momentos de briga para me fazer me sentir mal. Eu não sei o que é o amor para você, na verdade. Você se preocupa, você cuida, você tem medo, você controla, você constrange, você quer impor sempre a sua visão. Você não me conhece, e nem se conhecesse me amaria por isso. Você me ama porque sou sua filha, porque é o seu dever. Você só ama alguém por alguma razão que ache que deva amar.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Chegamos mais longe do que qualquer coisa que já passei. Estou assustada, feliz, mas assustada. Assutada por você, pela primeira vez. Antes tinha medo de ser anulada, de ser mudada, em sentidos da transcendentalidade que não gostaria de alterar. Bati o pé, me mantive. Depois tive medo de ser anulada, de ser mudada, em sentidos da mundanidade que não gostaria de alterar. Bati o pé, me mantive. Agora dou de cara com você. O perigo sou eu. O problema não é mais pensar se serei feliz, mas se vou te fazer feliz. Tenho medo do meu eu futuro, de repetir por diversas vezes meus acontecimentos originais nesse presente eterno, de não me curar, de não enterrar o passado. De me transformar naquilo que rejeito, mas que me habita desde antes mesmo de eu conhecer a mim mesma. Você é amor, você é cuidado, você é paciência, você é abraço. Você é tudo isso, porque você não fala sobre isso, porque você nem sequer deve se dar conta disso. Enquanto isso eu sou eu, a bagunça, a erupção inesperada, eu sou o pensamento, eu sou o controle. Eu sou a solidão, a imersão, o buraco.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

piano

Eu poderia te ouvir tocar para sempre
Você transforma qualquer tecla que eu aperte em música
Seus dedos alternam entre a leveza e a dureza necessária
Seus olhos ora fixos, ora fechados
Você põe tudo o que é nesse instrumento
Sua alma se confunde com o material
E o seu som ecoa dentro de mim e pela cidade

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O seu amor tem gosto de liberdade
de América latina, de revolução
O seu amor é novidade
Tem a pureza da infância,
o privilégio de não querer saber
para poder aprender.

O meu amor tem ânsia
de buscar o que não se pode dar
Tem gosto de querer se libertar
e não conseguir
De querer crescer
e ser sempre vista como criança