Páginas

sábado, 5 de setembro de 2015

Mal posso esperar o dia em que eu serei livre para adorá-lo
Onde poderei fazer e ser o bem que no fundo anseio, mas rejeito

Onde estarei livre do meu egoísmo, sabedoria própria, orgulho, do tempo
Onde não terei nenhum bloqueio para afirmar minha posição diante de Ti

Onde poderei dizer que verdadeiramente te amo,
já que também amarei a todos os outros

Sem máscara, sem vestes, sem carne.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Céu

Uma vez perguntei ao meu pai como será no céu. Ele falou que acha que terá muitos animais e todos muito dóceis. 
Talvez ele tenha me dado essa resposta para dizer que será bom no céu. Nada melhor para uma criança do que animais. Eu sempre amei os animais, tanto que já quis ser veterinária e bióloga.

Com o passar do tempo fui dando outras profissões como resposta para "o que você quer ser quando crescer?".

O que quero ser quando crescer...
Já não me fazem essa pergunta mais.
Talvez achem que já sou ou que já cresci.

"O que quero ser?"
Já não era?
"Quando crescer?"
E em algum momento paramos de crescer?

No fundo acho que só queria crescer. Se soubesse disso acharia redundante perguntarem o que eu gostaria de ser quando crescesse. Crescer já não basta?

Ainda quero crescer, já estou crescendo (e sendo).
Temo em um dia achar que já cresci e parar de querer aprender.

Ou de que o tempo passe tão depressa que eu não tenha aprendido todos os idiomas, conhecido todas as culturas e lido todos os livros que eu quero e ainda vou querer ler.

Se eu fosse perguntar para alguém, hoje, como será no céu, eu esperaria que me respondessem: um lugar onde se aprenderá para sempre e com as melhores companhias.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Sou construção

Sou o que sou,
o que fui
e o que serei

Eu sou minha história
que faz parte da história

Sou o meu país
com sua geografia,
história e política

Sou meus ascendentes
Sou a criação dos meus pais
e a criação que meus pais tiveram

Sou as alegrias da infância
e as rupturas da adolescência

A mudança de todos os dias
e a decisão de não mudar às vezes

Tudo o que eu sou
depende do dia,
do clima, da companhia
Do lugar, do ar, do mar

Sou uma árvore de várias sementes
Uma folha caída, jogada ao vento
que não tem asas, mas se ficar de boa
pode voar

Pássaros

Então eu precisei entrar na pequena lavanderia do apartamento onde morei durante minha infância. A janela, a única do lar que não tinha grade, estava aberta e o dia estava feio e escuro. 
Entre as coisas velhas e abandonadas no frio e na escuridão, eis que me deparo com meu passarinho...
Meu pássaro?! Meus pássaros?! Meu Deus! Meus pássaros! Como pude me esquecer! Meu Deus, olha o estado deles! Como podem estar vivos?! Meu Deus! Sou uma pessoa terrível! Mal me lembro da última vez que os vi, que os alimentei!
Calopsitas, papagaios e outras raças que não conheço. Todos depenados, descoloridos, desnutridos, com a validade mais que vencida! Velhos, estragados! E quanto mais eu olhava, mais pássaros via.
Como se já não bastasse o estado moribundo que se encontravam, suas patas estavam amarradas nas gaiolas, daquelas que não são completamente fechadas.
A única coisa que consegui pensar em fazer foi desamarrá-los o mais rápido possível! Um por um, rapidamente! Eles precisavam sair dali! Já tinham esperado e se agonizado demais!
Enquanto eles se soltavam e alçavam voo, para longe de mim, minha culpa ia se aliviando e eu ia entrando em êxtase pela liberdade que finalmente os proporcionava. 
Alguns, porém, insistiram em voar de volta para suas gaiolas.

terça-feira, 9 de junho de 2015


Sempre questionei a existência do presente como se não houvessem medidas temporais humanas capazes de medi-lo, de alcançá-lo.
"É agora?" "Não, já foi, é passado".
Porém é o futuro que está se mostrando incógnito. Sempre no "está chegando", mas nunca chega.
"Quando isso acontecer, eu serei feliz"
Assim adio minha liberdade, encontrando no futuro a minha morada.
Mas tudo fica sempre na mesma, como um eterno presente.
Onde é que se assina
a carta de alforria
Como é que se negocia
a saída efetiva
dessa torre maciça

Não quero ser protegida
Não quero ser socorrida
Quero só a vida
falar e ser ouvida

Sair, assim, pela saída
sem nenhuma infantaria
só eu, como uma guria
De maneira feminina

sexta-feira, 5 de junho de 2015

A minha vida inteira procurei demonstrações de amor, vindas de mim inclusive, e, de repente, cansei de todas que me apareceram! (e das que não apareceram também).
Não sou conservadora, nem liberal, nem socialista, nem comunista, nem crente, nem descrente. Por todas as correntes que corri, no fim, queria enforcar a todos que me rondavam com elas.
Quanto mais eu penso, mais me sinto beirando à loucura, mais eu sinto que não sou capaz de suportar nem as minhas dores, quem dirá as dores do mundo.
Achava meus braços curtos, hoje nem sei se eles sequer existem!
Mas continuo querendo pensar, saber. Quero que me expliquem gírias, piadas, o mal do mundo, o início do mundo, quero saber as suas angústias mais profundas, todas as suas experiências, todas, repito: todas! As mais fúteis, as mais boçais, aquelas cotidianas, que você não divide com ninguém.
Quero saber sem ter que opinar, sem ter que tirar conclusões. Cansei de tentar encontrar soluções para todas as pessoas do mundo que eu nunca vou conseguir conhecer, nem as mais próximas, pela minha não desejada e tão criticada timidez.
E foi num dia, totalmente desacreditada, totalmente desgastada, totalmente quebrada, com meus sonhos e todas as utopias juvenis lançadas ao espaço que eu senti que nenhuma demonstração de amor pode vir do ser humano, mas as demonstrações de amor podem vir pelo ser humano enquanto criação divina.
A natureza, o tempo real, a concretude das coisas e não as abstrações vindas da idade e ciências modernas.
Não, assim como já observou homem mais ridículo, segundo o pensamento limitado dos que se acham racionais:  a consciência da vida não é viver! A consciência da felicidade não é felicidade!
Quero tentar viver pura e simplesmente, sem tentar encontrar nenhuma caixa para caber, sem me limitar num universo tão gigantesco, obra de arte do poderoso, que só por ser Deus para continuar me amando, amando a todos nós: metidos a gênios, metidos a entendedores, metidos a sentimentais, metidos a amantes!